A febre dos fundos internacionais

Desde o ano passado, com a boa performance das bolsas globais e a perda de valor do Real, o interesse passou a ser por diversificar ao redor do mundo.

É compreensível, afinal, qualquer adição a esses dois fatores tornaria o seu portfólio mais rentável do que uma carteira com foco exclusivamente no Brasil (exatamente como mostra o gráfico abaixo).

Gráfico apresenta performance acumulada entre os portfólios – março/19 = 100
Fonte: Economatica

Com essa temática tão forte nos mercados nos últimos tempos, o próximo passo lógico para as corretoras era se aproveitarem disso. Eu não julgo, o vendedor sempre vai se aproveitar da moda para vender.

Fato é que o que vimos nos últimos meses foi uma enxurrada de ofertas de produtos internacionais. Não à toa, nos últimos meses, recebo informações de um fundo novo de uma gestora global todos os dias. O mesmo acontece quando abro alguma caixinha de perguntas no meu Instagram.

É humanamente impossível avaliar todos, entretanto, eu dei uma olhada em diversos deles e vou falar um pouco o que me preocupa.

Questione-se

Independentemente de qualquer temática, é nossa função sempre nos questionarmos, buscando entender se elas fazem sentido para o nosso patrimônio ou não.

Acho que não há dúvidas sobre a importância de diversificar internacionalmente, com a possibilidade de se aproveitar de diferentes fontes de retornos e estar menos suscetível às peripécias de Brasília.

Na hora de pensar sobre fundos ativos no exterior, temos algumas preocupações importantes, e vou citar somente quatro:

Baixo acesso ao time de gestão. Em terras tupiniquins, temos acesso aos gestores dos fundos bem como à sua equipe. Isso nos abre espaço para avaliarmos extensamente como funcionam os processos internos, as estruturas de incentivos, a forma de pensar etc.

Assim, em tempos de crise, conseguimos conversar com os gestores, entender como estão avaliando o cenário e entender se alguma “besteira” está sendo feita ou não.

Em terras internacionais, nosso acesso é bastante limitado, no máximo ficamos sujeitos a um telefone sem fio com um intermediário.

Acredito que esses pontos acabam prejudicando a avaliação qualitativa.

Benchmarks fáceis de bater. Grande parte dos fundos internacionais está vindo com benchmark MSCI World (uma espécie de indicador para o comportamento global das bolsas), e acho ele bem ruim.

Explico o motivo: os polos de forte crescimento do mundo estão, de forma macro, na China e nos Estados Unidos. O restante, na verdade, tem dificuldades de crescimento mais forte e, com isso, os retornos dos mercados são menores – como fica claro no gráfico abaixo.

Isso faz com que, ao evitar esses mercados e se concentrar nos demais, você já cria uma “vantagem estrutural” de retornos em cima do benchmark sem grandes esforços. Em outras palavras, não são necessários esforços por parte da gestão para criar riqueza, basta “apenas” usufruir do beta. MSCI World é um índice fraco.

Gráfico apresenta performance acumulada USA vs. resto do mundo (%).
Fonte: Bloomberg

A gestão ativa está com problemas. Não é de hoje que se tem conhecimento da dificuldade dos gestores ativos em gerar retornos acima dos seus respectivos benchmarks, inclusive, foi em cima disso que ficou famosa a aposta do Buffett contra Ted Seides (gestor de FoF), que o velhinho ganhou de lavada.

Ainda que seja um evento que já completou mais de uma década, a situação não parece ter se alterado. As últimas contas conduzidas por mim com 3600 fundos em diversas categorias (growth, value, blend) mostraram que 1,8 por cento dos gestores batia o S&P500 em janelas de uma década. É por isso que valorizo o que o Cesar Crivelli tem feito no Nord Global, com resultados crescentes.

Nem tudo é o que parece entre os que batem o benchmark. Entre os que batem os índices de mercado, há uma outra componente importante para se avaliar: o ganho veio por beta setorial ou alfa? Muitos dos gestores que eu tenho visto batem alguns dos índices de mercado, mas simplesmente o fazem por terem um percentual alocado maior do que o índice em um setor específico (geralmente tecnologia).

Entretanto, quando você faz esse ajuste de alocação, vê que todo o excesso de retorno se perde, o que te leva a crer que o ganho era setorial. Esse é o ponto mais delicado de se discutir.

Afinal de contas, acertar qual setor será vencedor é o que conta ou vale mais o stock picking? Se o ganho vem setorialmente, isso é replicável por fundos passivos.

Conheço gente boa (MUITO BOA) em ambos os lados dessa batalha e confesso que não tenho a resposta. Há alguns poucos gestores que de fato sabem fazer stock picking fora e são verdadeiros ganhadores de dinheiro. Esses são mais raros e ainda não temos acesso a eles.

O diabo está no detalhes

Você já deve ter escutado aquela frase “o diabo está nos detalhes''. A moral da frase era alertar as pessoas de que às vezes os erros são cometidos por não nos atentarmos às pequenas coisas.

De certa forma, isso é o que está acontecendo. Por trás de todos aqueles retornos bonitos dos fundos internacionais, há entre os detalhes as taxas cobradas por eles. Fato é que, em muitos casos, o pacote completo acabará corroendo grande parte do resultado obtido.

O caso mais recente é do fundo da Bridgewater. Como gestora, acho sensacional o que Ray Dalio construiu, não temos muitas discussões em relação a isso. Porém, o fundo veio com uma estrutura de taxas que, na minha visão, torna difícil a conta fechar para o investidor.

Pelas informações, o retorno anualizado do fundo original é 6,54 por cento em dólares (sem variação cambial). Entretanto, quando retiramos os custos, percebemos que o retorno para replicar a estratégia aqui via espelho é próximo a 4,1 por cento.

Isso quer dizer que você deixa na mesa um pouco mais de um terço dos resultados só em taxas para sustentar a estrutura. Confesso que me parece salgado, como se eu tivesse pagando 15 reais naquela Budweiser no meio da balada.

Outra forma de chegar ao mesmo resultado é olhar o retorno da simulação feita. Os retornos do fundo, considerando a variação cambial, foram em torno de 13,45 por cento ao ano desde novembro de 2007. Nesse período, o real teve uma desvalorização próxima a 9 por cento ao ano, então o excedente é o retorno do fundo (4,10 por cento).

Retorno + valorização cambial (% a.a.): 13,45%;
Depreciação cambial: 8,98%;
Retorno do fundo (líquido de taxas): 4,10%.


Pois é, o diabo realmente mora nos detalhes. Para investir internacionalmente, neste momento, acabei adotando um caminho diferente.

Escravo das consequências

É uma responsabilidade enorme dar recomendações de investimento, afinal, estamos lidando com o patrimônio de uma vida das pessoas.

Então eu estudo, olho, faço contas, busco informações… Tudo que for preciso para tentar dar as melhores recomendações que sou capaz de produzir. Também não é segredo para ninguém que invisto meu próprio patrimônio nas recomendações, justamente porque acredito em cada uma delas.

Porém, quando o assunto é fundo internacional, eu não consegui encontrar motivos para investir o meu próprio dinheiro com eles – por conta dos motivos que apontei acima. Pode ser que eu encontre algum gestor que eu acredite que valha a pena; até isso acontecer, continuarei adotando outro caminho.

Enquanto isso, comecei a estudar bastante a gestão passiva lá fora como uma alternativa para exposição internacional e tenho visto coisas bem interessantes. Pode ser estranho ver um analista cuja função é escolher gestores ativos falar positivamente de gestão passiva.

Confesso que não me importo, pois a minha função não é defender dogmas ou conceitos preconcebidos, mas procurar as melhores alternativas de investimento para fazer seu patrimônio crescer.

Na segunda-feira, coloquei o primeiro ETF internacional na carteira do Nord Fundos. A minha ideia é trazer outros ao longo do tempo. O link para acessar a carteira por 12 meses está aqui.

Cabe a você escolher agora qual caminho quer seguir. Somos livres para fazer nossas escolhas, mas sempre escravos das consequências.

Um abraço,