A avançada matemática não te ajuda

A origem dessa obsessão provavelmente está na maneira como as pessoas são ensinadas a investir.

O conceito de comparar o valor intrínseco e o preço é facilmente assimilado. A ideia de pagar por algo, menos do que ele vale, é brilhantemente simples.

Uma das variáveis, o preço, está na tela à nossa frente. Logo, a preocupação está em como estimar o valor.

A técnica mais utilizada é a do FCD (Fluxo de Caixa Descontado), em que os fluxos de caixa de uma empresa são projetados para os próximos anos e trazidos a valor presente por uma taxa de desconto.

A visão de Charlie Munger (que dispensa apresentações) sobre o tema pode ser resumida na frase a seguir – em tradução livre:

“Algumas das piores decisões que eu vi foram aquelas com projeções e descontos a valor presente. Parece que avançada matemática, com sua falsa precisão, deveria ajudar, mas não ajuda. Eles ensinam isso nas universidades porque, bem, eles precisam fazer alguma coisa.”

Correndo atrás do próprio rabo

Quando um analista senta em sua mesa e começa a trabalhar no seu modelo, ele precisa projetar receitas, custos, margens, impostos e uma infinidade de outros números que vão afetar os fluxos de caixa projetados.

E na maioria dos casos, estas projeções vão de hoje, até o infinito. Projeções para sempre.

Pra piorar, cada linha de resultado projetado não é um evento independente. Logo, um erro qualquer influência tudo aquilo que está abaixo dele.

Qual a chance do resultado final de toda essa projeção estar correto?

Preço (branco) vs Média dos preços-alvo do mercado (verde). Fonte: Bloomberg.

A imagem ilustra bem a resposta para a pergunta acima.

O gráfico mostra a evolução de preço da IRB Brasil Resseguros (IRBR3) na linha branca e a projeção média dos analistas na linha verde.

As projeções, geralmente, são para um período de 12 meses. Fica claro que a taxa de acerto dos preços-alvos do mercado é praticamente nula.

As projeções, simplesmente, seguem o preço das ações no mercado.

Com o gráfico de qualquer outra ação e seus preços-alvo, o comportamento visto não seria muito diferente.

É fácil notar que o preço-alvo caminha em sincronia com o preço da ação, quase sempre mantendo uma distância padrão, que costuma ser algo próximo a 25% de upside (potencial de ganho).

Diferentemente do preço que, naturalmente, muda todo dia, cada pequeno movimento na linha verde significa que o mercado alterou seus modelos de valuation.

É impossível que tenham ocorrido tantas mudanças de fundamento no período – a única coisa que justificaria uma revisão no modelo e, consequentemente, nos preços-alvo.

Lembrando que o fundamento mais importante, os resultados trimestrais, são apenas trimestrais - de 3 em 3 meses.

Informação inútil

A mensagem aqui é simples.

Não se apegue a uma informação inútil.

Não é só porque um número mágico existe, que devemos nos ancorar nele. Nem o próprio analista responsável confia em seu próprio preço-alvo.

Mas, muitos analistas esquecem que seu trabalho não é projetar, mas sim analisar – como o próprio nome da profissão já diz.

Quando um relatório começa com: "minhas projeções", você já sabe o valor daquilo.

Por essas e outras, no Investidor de Valor, dedicamos nosso tempo a entender negócios, em vez de perder tempo tentando adivinhar um futuro incerto.

E o futuro é sempre incerto.

Analisamos apenas o que está implícito no preço, comparamos com a realidade e as potencialidades da empresa.

No preço estão embutidas as probabilidades de ganho ou perda - quanto mais caro, maiores as expectativas do mercado.

O mestre Benjamin Graham uma vez disse que você não precisa saber o peso exato de uma pessoa para identificar se ela está acima ou abaixo do peso.

Logicamente, ele estava falando dos seus investimentos.

Como disse John Maynard Keynes: "É melhor estar aproximadamente certo do que precisamente errado".

Grande abraço,